A história da urbanista Carmen Velasco Portinho é uma importante referência na luta das mulheres por reconhecimento profissional e igualdade de direitos no Brasil. Nascida em Mato Grosso em 1903, Carmen foi a primeira brasileira a conquistar o título de urbanista, tornando-se um ícone do feminismo e da arquitetura moderna ao longo do século 20.
Trajetória e Conquistas
Carmen Velasco Portinho se formou em Engenharia na Universidade do Brasil em 1925, onde iniciou seu envolvimento em questões sociais. Sua passagem pela Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio de Janeiro permitiu que ela contribuísse significativamente para o planejamento urbano e o desenvolvimento da cidade. Uma das suas primeiras conquistas foi a oportunidade histórica de lecionar no Colégio Dom Pedro II, uma instituição até então exclusivamente masculina.
Na sua pós-graduação em urbanismo, Carmen trabalhou em um anteprojeto para Brasília, a futura capital do Brasil, projetando uma cidade que incorporasse os princípios do urbanismo moderno. Sua visão à frente do seu tempo foi uma das várias demonstrações da sua capacidade inovadora e de liderança em áreas dominadas por homens.
Carmen e o Sufrágio Feminino
Além de suas contribuições ao urbanismo, Carmen Velasco Portinho foi uma figura essencial na luta pelo voto feminino no Brasil. Ao lado de Bertha Lutz, ela participou ativamente de campanhas que buscavam garantir o direito das mulheres de votarem. Um momento notável foi quando sobrevoou a cidade do Rio de Janeiro, lançando panfletos informativos sobre o sufrágio a partir de um avião, uma ação ousada e impactante para a época.
Em 1922, Carmen fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, e em 1930, a União Universitária Feminina. Sua determinação em ampliar as oportunidades para mulheres levou também à criação da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas em 1937, promovendo a inclusão das mulheres no ensino superior e no mercado de trabalho.
Legado e Impacto na Arquitetura
A influência de Carmen na arquitetura moderna se estendeu além das questões de igualdade de gênero. Após estagiar na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, ela assumiu a direção do Departamento de Habitação Popular no Rio de Janeiro, uma contribuição vital para a melhoria das condições de habitação popular na cidade. Sua liderança foi crucial na construção do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, onde foi a única mulher em um canteiro de obras formado por 450 homens.
Durante 20 anos, Carmen também dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial, a primeira desse tipo na América Latina, mostrando que a presença feminina na engenharia e arquitetura não apenas era possível, mas também fundamental para o desenvolvimento sustentável da sociedade. Em 1987, reforçou suas lutas sociais ao entregar a Carta das Mulheres aos constituintes, visando garantir direitos relevantes na nova Constituição que seria adotada no país no ano seguinte.
Carmen Velasco Portinho faleceu em 2001, mas seu legado perdura. Em 2022, foi oficialmente reconhecida como a patrona do urbanismo no Brasil, um título que solidifica seu papel como pioneira e líder em sua área de atuação. Sua história é preservada por instituições como a ANE Brasil e o Instituto de Arquitetos do Brasil, que destacam suas contribuições à engenharia e ao feminismo.
Com sua trajetória inspiradora, Carmen Velasco Portinho continua a ser uma referência não apenas para futuras gerações de mulheres na arquitetura e urbanismo, mas também para todos que lutam por igualdade e um mundo mais justo.



