Com alta demanda, o Brasil deve dobrar sua capacidade de mercado de data centers até 2030. Uma boa parte dessa nova capacidade já está contratada antes mesmo de ser concluída.
Dos 660 MW (megawatts) que estão em construção no país, 56% já possuem contratos firmados, de acordo com levantamento da consultoria JLL. A alta taxa de ocupação, que chegou a 96% no primeiro semestre, deixa apenas 4% disponíveis para novos clientes.
Capacidade em crescimento contínuo
O relatório da consultoria prevê que a baixa disponibilidade de data centers continuará até 2030, mesmo com a nova capacidade sendo adicionada ao mercado. Desde 2012, a capacidade instalada aumentou mais de seis vezes, apresentando um crescimento médio anual de 15%. No primeiro semestre deste ano, o país recebeu 106 MW de nova capacidade, o maior volume já registrado, e outros 134 MW estão previstos para ser concluídos ainda neste ano, resultando em entregas em níveis recordes.
Ainda assim, o setor continua enfrentando desafios de infraestrutura, regulação e questões ambientais. Para sanar parte desses problemas, foi sancionada em 15 de setembro a nova lei Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), que visa estimular a instalação e ampliação dos centros de dados no país.
Projeções ambiciosas para o futuro
Em entrevista à CNN, Tito Costa, CRO da Tecto Data Centers, destacou que o Brasil pode dobrar sua capacidade até o final de 2027 e até mesmo quadruplicar nos próximos cinco anos. Atualmente, a companhia opera sete data centers, sendo três em Fortaleza, um no Rio de Janeiro e três em Barranquilla, na Colômbia, e já possui projetos para outros dois centros em Porto Alegre e na Grande São Paulo.
O investimento planejado pela companhia é de US$ 2 bilhões entre 2026 e 2028, visando acelerar sua expansão na América Latina. Costa enfatiza a necessidade de aprimorar a geração de energia nas usinas eólicas e solares, que frequentemente se vê limitada por cortes de produção.
Desafios e soluções no setor energético
Estima-se que há 4 GW (gigawatts) em cortes de energia (curtailment) no Brasil, que limita a produção elétrica das usinas renováveis. Esses cortes, impostos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), são necessários para manter a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico, mas dificultam o crescimento do setor.
Joísa Dutra, diretora do Ceri-FGV e colunista da CNN Infra, sugere que a flexibilidade energética pode ser uma solução viável. Data centers projetados para modular seu consumo em até 100 horas por ano poderiam gerar reduções significativas de tarifa, minimizando a necessidade de novos investimentos em geração de energia a partir do gás natural.
Ela argumenta que a adoção de boas práticas é fundamental para que esses projetos sejam vistos como soluções e não como desafios para o setor energético. Além disso, ela destaca a importância de considerar o impacto desses projetos sobre os recursos naturais, como água e minerais, especialmente em áreas já afetadas por estresse hídrico.
Costa prevê que o Brasil está prestes a experimentar um crescimento explosivo no mercado de data centers, impulsionado pela inteligência artificial e pela demanda crescente. Ele acredita que, para atrair investimentos internacionais, será necessário reduzir os custos dos serviços de nuvem e data centers. A cerca de 40% do workload brasileiro ainda roda nos Estados Unidos, tornando imperativa a necessidade de oferecer preços competitivos.
Apesar dos incentivos do Redata, ainda existem barreiras tributárias que mantêm os custos de construção de data centers em níveis superiores aos de outros países. O projeto pode reduzir significativamente esses custos, mas ainda assim se estima que operar um data center no Brasil custa entre 15% e 20% mais do que no exterior.
O setor busca formas de acelerar os investimentos de maneira mais eficiente, fazendo alianças internacionais, como a AI Energy Management Alliance (AEMA), que inclui empresas como Google e NVIDIA. O objetivo é estabelecer protocolos que agilizem a implementação de novos data centers e respeitem as preocupações das comunidades locais, que frequentemente se opõem à instalação desses empreendimentos próximos a suas residências.
A resistência local ao crescimento desse segmento, algo chamado de comportamento nimby (not in my backyard), se expande além das plantas de energia e refere-se também a data centers. A concentração do setor em São Paulo, embora seja explicada pela proximidade com clientes e a infraestrutura necessária, deve gradualmente se espalhar para outras regiões, especialmente o Nordeste, devido a incentivos regulatórios e à disponibilidade de energia renovável.
Sensibilidade socioeconômica da expansão
A expansão dos data centers traz impactos diretos ao PIB e ao emprego, além de fortalecer a infraestrutura tecnológica nacional. Segundo pesquisa da FGV, para cada R$ 1 milhão investido no setor, são gerados aproximadamente R$ 350 mil em renda. Tais investimentos não apenas aumentam a capacidade de processamento do país, mas também estimulam a formação de profissionais especializados.
Marco Alberto Silva, CEO do Grupo Engemon, enfatiza que, para o Brasil se tornar um centro internacional de tecnologia, é crucial integrar energia, conectividade, e mão de obra qualificada. Ele ressalta que a transformação trazida pela inteligência artificial deve ser acompanhada de planejamento estratégico e análise detalhada da demanda.




