A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) prestou uma importante homenagem na última quarta-feira (5) ao conceder o título de pesquisador emérito póstumo aos dez cientistas que foram cassados durante a ditadura militar, em um episódio que ficou conhecido como o “Massacre de Manguinhos”. A cerimônia ocorreu nas escadarias do Castelo da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e marcou a lembrança de um capítulo doloroso da história da ciência no Brasil.
Os homenageados foram os pesquisadores Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Além deles, Herman Lent, que já era pesquisador emérito da Fiocruz desde 2004, e Walter Oswaldo Cruz, filho do patrono da Fundação, também foram lembrados.
A data escolhida para a homenagem coincide com o Dia Nacional da Saúde, simbolicamente reforçando a necessidade de se unir ciência e democracia. Este ato representa um “manifesto pela liberdade”, estabelecendo uma ligação importante entre a reintegração dos cientistas em 1986 e a luta contínua pela liberdade acadêmica.
A importância da homenagem
Em um momento em que a ciência é frequentemente desafiada, a homenagem resgata as trajetórias de vida e trabalho desses cientistas como símbolos do desenvolvimento científico no Brasil. Para o presidente da Fiocruz, Mário Moreira, a repressão não deve ser esquecida. Ele afirmou que “houve tempos sombrios quando governantes viam na ciência livre uma ameaça”. Essa declaração reforçou a urgência de assegurar que a ciência, a educação e a democracia sejam sempre defendidas e não vistas como perigosas.
O ato foi uma forma de intervenção política necessária para lembrar os danos causados pela cassação e a importância da liberdade acadêmica. “Estamos aqui exatamente para que não se repita. E essa afirmação política ainda é necessária mesmo passados 56 anos da cassação dos nossos pesquisadores”, completou Moreira.
Esta cerimônia se tornou ainda mais significativa pela presença de familiares e herdeiros científicos dos pesquisados homenageados, reforçando a importância da memória coletiva para o fortalecimento da ciência no Brasil.
Contexto histórico da cassação
A perseguição política que culminou no Massacre de Manguinhos em 1970 foi um dos episódios mais marcantes da história da ditadura militar no Brasil. Dez cientistas renomados foram afastados de suas funções a mando do regime, que entendia a pesquisa científica e a liberdade de expressão como ameaças à sua autoridade.
O evento vanguardista da homenagem na Fiocruz ficou marcado pela apresentação do contexto sócio-histórico que envolve essa perda trágica. O historiador da COC/Fiocruz, Gilberto Hochman, destacou que o ato é um símbolo de memória e reparação. Ele asseverou a necessidade de relembrar a violência do regime militar contra as instituições científicas brasileiras e a vitalidade das contribuições desses cientistas.
“Um ato para relembrarmos sempre a violência perpetrada pela ditadura militar contra a universidade brasileira”, mencionou Hochman, celebrando a vida e a obra dos homenageados, que resistiram e lutaram pela ciência até suas cassações.
A leitura da carta em homenagem
A cerimônia também incluiu a leitura de uma carta dos pesquisadores eméritos, homenageando os cientistas cassados. Essa mensagem reflete a dor e a luta desses pesquisadores que, apesar da adversidade, dedicaram suas vidas à ciência e ao progresso. O evento contou ainda com a apresentação de uma impressão do livro “O Massacre de Manguinhos”, publicado por Herman Lent em 1978, um documento histórico que traz à luz as atrocidades cometidas na época.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e as presidentas da ABC (Academia Brasileira de Ciências) e da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Helena Nader e Francilene Procópio Garcia, enviaram mensagens em vídeo, reforçando a importância de um legado que busca a justiça e a lembrança das violações de direitos humanos na história do Brasil.
A homenagem realizada pela Fiocruz é um passo importante na reconstrução da história da ciência brasileira, lembrando a todos que a liberdade e a democracia são essenciais para a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e saudável.
Essa memória coletiva é vital para garantir que o Brasil nunca mais passe por momentos tão obscuros, onde a ciência e a educação foram ameaçadas. Este ato de lembrança e reparação é um chamado para a sociedade e para as futuras gerações, defendendo que a liberdade deve ser protegida e celebrada em todas as esferas da vida.




