Uma entrevista que viralizou nas redes sociais, por mais cômica que possa parecer, escancarou a revolta de um amazonense durante um dos vários apagões que atingiram Manaus. “Amazonas Energia, cadê a luz? Quem é o CEO desta empresa? Onde ele mora? Está lá na Ponta Negra!”, questionava o morador durante um protesto no bairro Japiim.
O vídeo rapidamente ganhou as redes e acabou se tornando mais um registro da insatisfação da população com a empresa durante o período em que Orsine Rufino de Oliveira esteve no controle da Amazonas Energia. As reclamações se repetiam em diferentes pontos do Amazonas, enquanto a concessionária enfrentava uma grave deterioração financeira e operacional.
Orsine assumiu o controle da Amazonas Energia após o processo de privatização da distribuidora, em 2018. A partir daí, a empresa passou a acumular novos problemas financeiros e a enfrentar uma sequência de cobranças relacionadas à qualidade do serviço. Em 2024, a própria Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reconheceu a gravidade do cenário e apontou que as dificuldades econômicas e financeiras da concessionária tinham impacto direto na qualidade e na segurança dos serviços prestados.
Enquanto as contas da empresa chegavam à casa dos bilhões, os apagões deixavam de ser episódios pontuais para se transformar em um problema recorrente na vida dos amazonenses.
Em Manacapuru, na Região Metropolitana de Manaus, a população enfrentou um dos episódios mais emblemáticos em maio de 2024. A cidade ficou aproximadamente 12 horas sem energia entre a tarde de sábado, dia 11, e a madrugada de domingo, dia 12. Durante o período, serviços de telefonia e internet também foram prejudicados, enquanto moradores relataram problemas no abastecimento de água.
O apagão ocorreu justamente no fim de semana do Dia das Mães. Famílias que planejavam comemorar a data precisaram lidar com a falta de serviços básicos. “A energia acabou e com isso vários serviços pararam por aqui, internet e água principalmente. Lembrando que no domingo era Dia das Mães, muitas famílias reunidas para comemorar esse dia, mas nem a água para preparar o almoço tinha”, relatou o morador Henrique Oliveira.
A falta de energia também atingiu o futebol. Naquele mesmo sábado, a partida entre Princesa do Solimões e Manaus FC, válida pela Série D do Campeonato Brasileiro, precisou ser interrompida no Estádio Gilbertão. O segundo tempo ficou para o dia seguinte depois que o sistema de iluminação deixou o estádio às escuras.
O episódio não era isolado. Um mês antes, em abril de 2024, Manacapuru já havia enfrentado cerca de dez horas sem energia. Na ocasião, a Amazonas Energia informou que o problema havia sido provocado pelo desligamento inesperado da linha de transmissão Lechuga‑Manaus. No apagão de maio, a empresa apontou um desligamento não programado da linha Iranduba‑Manacapuru e informou que as equipes enfrentaram dificuldades para chegar ao local do defeito.
Em Manaus, os efeitos dos apagões também chegaram a serviços essenciais. Durante uma interrupção registrada em abril de 2024, o Hospital e Pronto‑Socorro Platão Araújo enfrentou problemas com o funcionamento do gerador. O caso levou o deputado estadual Wilker Barreto a cobrar explicações da Amazonas Energia e manutenção dos equipamentos de emergência das unidades de saúde.
Na Assembleia Legislativa do Amazonas, o parlamentar questionou como a população poderia ser cobrada normalmente pela energia diante dos prejuízos provocados pelos apagões e chamou atenção para o risco enfrentado pelos pacientes durante a interrupção no hospital.
As reclamações também se espalhavam pelas redes sociais. Em outro episódio, moradores chegaram a protestar depois que um incêndio em um poste, no cruzamento das avenidas Salvador e Mário Ypiranga Monteiro, em agosto de 2024, provocou interrupções no fornecimento de energia e prejudicou a internet em áreas das zonas Sul e Centro‑Sul de Manaus.
O incêndio provocou congestionamentos, afetou a rede de comunicação e levou equipes a trabalharem na recomposição do sistema. Nas redes sociais, a população voltou a criticar a estrutura da cidade e a dependência de uma rede que, diante de uma ocorrência localizada, podia provocar transtornos em diferentes serviços.
Era nesse cenário que a Amazonas Energia chegou aos últimos anos sob o antigo controle: uma empresa pressionada financeiramente, alvo constante de reclamações e com problemas de fornecimento que atingiam desde famílias e comerciantes até hospitais, serviços de comunicação e eventos esportivos.
A crise financeira também ganhou dimensão nacional. Documentos e informações financeiras da companhia mostravam um passivo bilionário, enquanto a Aneel discutia medidas para recuperar o equilíbrio econômico‑financeiro da concessão e criar condições para que a distribuidora voltasse a receber os investimentos necessários.
Uma nova fase para a Amazonas Energia
Foi diante desse cenário que uma mudança de comando abriu uma nova etapa para a distribuidora. Em abril de 2026, a Âmbar Energia assumiu o controle da Amazonas Energia e passou a trabalhar na recuperação de uma estrutura que chegava à nova gestão depois de anos de dificuldades.
A proposta apresentada pela nova controladora inclui investimentos para modernizar a rede, ampliar a estrutura, melhorar a eficiência operacional e recuperar a capacidade de atendimento da distribuidora. Um pacote anunciado pelo Ministério de Minas e Energia prevê cerca de R$ 3,3 bilhões em investimentos no setor elétrico do Amazonas, sendo R$ 2,34 bilhões previstos pela Âmbar para ações como modernização e expansão da rede, digitalização do sistema, instalação de medidores inteligentes e construção e ampliação de subestações.
A mudança, portanto, não representa apenas a troca de uma empresa por outra. A Âmbar recebeu uma concessão que carrega um histórico recente de problemas financeiros e de episódios de interrupção que afetaram diretamente a rotina da população.
Agora, o desafio é transformar os investimentos anunciados em resultados concretos para quem está do outro lado da tomada.
Para o amazonense, a expectativa é simples: ter energia funcionando quando precisar. Que uma falha na rede não deixe uma cidade inteira no escuro, que hospitais tenham segurança para manter seus equipamentos funcionando, que comerciantes não precisem contabilizar prejuízos e que famílias não voltem a perder alimentos ou comprometer datas importantes por causa de apagões.
Depois de anos de reclamações e uma crise que colocou a própria continuidade da concessão em discussão, a Amazonas Energia entra em uma nova fase. A missão da Âmbar agora é recuperar a estrutura, corrigir os problemas e fazer com que a falta de energia deixe de ser uma realidade tão presente na vida dos amazonenses.




