A imagem clássica do vinho brasileiro ainda remete às paisagens da Serra Gaúcha, no Sul do país. Mas, nos últimos anos, esse mapa tem se redesenhado — e ele passa pelo Cerrado.
Em Brasília, a inauguração de um laboratório voltado à certificação e pesquisa, reforça a presença dos chamados “vinhos de inverno” em regiões pouco associadas à produção vitivinícola, como o Centro-Oeste brasileiro.
Na próxima terça-feira (31), a Anprovin (Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno) inaugura o Centro de Análises e Pesquisa da Vitivinicultura Brasileira. O espaço foi desenvolvido em parceria com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), que investiu R$ 3,4 milhões no projeto, e pretende se tornar referência técnica para produtores de diversas regiões do país.
A estrutura atenderá mais de 55 vinícolas associadas à Anprovin, distribuídas pelo Sudeste, Centro-Oeste e também por novas fronteiras vitícolas, como a Chapada Diamantina, na Bahia. O laboratório permitirá análises físico-químicas e sensoriais de alta precisão, além de oferecer suporte técnico, cursos e treinamentos voltados à qualificação profissional no setor.
Fortalecimento da vitivinicultura brasileira
A implantação do Laboratório de Certificação no Distrito Federal “simboliza o fortalecimento da vitivinicultura brasileira fora do eixo Sul e oferece suporte estratégico aos produtores do Centro-Oeste, Sudeste e de novas fronteiras vitícolas, como a Chapada Diamantina (BA)”, disse Cláudio Góes, presidente da Anprovin.
Além disso, o centro tem como objetivo também ampliar a competitividade dos vinhos e consolidar um “ambiente técnico-científico voltado à excelência, à rastreabilidade e à consolidação dos Vinhos de Inverno como um dos segmentos mais inovadores do vinho brasileiro”, reforçou.
Para o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, a estrutura representa um avanço para estimular a inovação no setor. “Estamos fortalecendo a capacidade das vinícolas do Centro-Oeste e de outras regiões de investir em tecnologia e elevar a qualidade da produção, impulsionando os Vinhos de Inverno. É também uma forma de ampliar oportunidades e apoiar quem quer produzir cada vez mais e melhor”, disse.
Vinhos de inverno em destaque
A expansão das regiões brasileiras aptas à produção de vinhos de qualidade está associada ao avanço dos chamados vinhos de inverno, elaborados a partir da técnica da dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murillo Regina, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais). O método altera o ciclo da videira ao transferir a colheita para o período seco do ano, favorecendo a qualidade das uvas.
Estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal já integram esse novo mapa produtivo. Nessas regiões, os produtores reúnem cerca de 1,2 milhão de videiras e uma produção anual próxima de 1 milhão de garrafas, com projeção de crescimento nos próximos três anos.
A técnica da dupla poda, também chamada de ciclo invertido, resulta de pesquisas e adaptações agronômicas. O processo desloca a produção das uvas para meses de menor índice de chuvas e maior amplitude térmica, com dias ensolarados e noites mais frias.
O manejo envolve duas podas ao longo do ano: a primeira em agosto e a segunda em janeiro. Após a segunda intervenção, o ciclo recomeça, com floração entre abril e maio e colheita entre o fim de julho e o início de agosto.
Nesse período, predominam dias secos e ensolarados, com temperaturas mais elevadas durante o dia e mais baixas à noite. Assim, as condições climáticas contribuem para a formação de uvas com características próprias, distintas entre os vinhos finos brasileiros.


