No primeiro turno das eleições de 2026, o Brasil registrou uma alta taxa de abstenção, com 33,4 milhões de eleitores não comparecendo às urnas. Isso representa 21% dos aproximadamente 158,7 milhões de eleitores habilitados. Esse cenário levanta questionamentos sobre a relação entre os candidatos e a sociedade, além de abrir possibilidades de votos para o segundo turno.
A alta abstenção, a mais elevada desde 1998, chama a atenção de candidatos à Presidência, como Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, que buscam converter essa ausência em votos válidos. A justificativa para não comparecimento pode variar desde questões de saúde e imprevistos até protestos e descontentamento com as opções disponíveis.
O cientista político Renato Dolci menciona que é crucial distinguir entre aqueles que não foram votar por motivos involuntários e os que optaram por não comparecer. Segundo ele, muitos não vêem candidatos como representantes legítimos das suas esperanças de mudança. Para ele, essa desconexão é um indicativo de uma crise de representação que se manifesta no distanciamento entre a sociedade e o sistema político, refletindo uma desconfiança nas promessas eleitorais.
Consequências da Polarização Política
A análise de Murilo Medeiros, cientista social da UnB, corrobora a visão de Dolci, afirmando que a polarização acentuada e altos índices de rejeição a candidatos desmotivam os eleitores. Para muitos, o voto parece não ter impacto nas mudanças políticas desejadas. Essa condição de desilusão pode ser uma das principais razões pelas quais os eleitores abandonam as urnas.
Além dos 21% de abstenções, o fenômeno da indecisão também merece destaque. De acordo com uma pesquisa da Quaest, os indecisos aumentaram de 7% para 14% em apenas uma semana. Dolci sugere que os candidatos devem se distanciar da retórica de medo e apresentar propostas concretas, impactantes para os eleitores indecisos e desengajados.
Medeiros agrega que é importante focar especificamente nos eleitores “pendulares”, como mulheres e jovens de baixa renda em áreas periféricas, que podem mudar seu voto a depender das propostas apresentadas. Outra importante fatia é a dos eleitores com 70 anos ou mais, que somam 17 milhões, sendo 8,45 milhões ainda têm que se decidir.
A Ausência de Disputas Locais
A situação se agrava com a ausência de um segundo turno em 21 das 27 unidades da federação, obrigando os eleitores a se pronunciarem apenas sobre a presidência. Isso pode resultar em um desinteresse ainda maior, segundo Medeiros, que observa que candidatos como Lula e Flávio devem manter suas bases mobilizadas, mesmo sem a disputa local para governador como âncora.
Dolci, por outro lado, acredita que a intensidade da eleição presidencial pode impulsionar a presença dos eleitores nas urnas, apesar da falta de disputas estaduais. Ele sugere que a relevância do cargo presidencial pode servir como um forte estímulo para a participação do eleitorado.
Desafios e Soluções para a Abstenção
A Justiça Eleitoral brasileira impõe penalidades para ausências injustificadas, como a multa de R$ 3,51 por turno não votado. Além disso, a falta de voto consecutiva pode levar ao cancelamento do título, revelando um problema maior em relação à participação política. Data de 2025 aponta que mais de 5 milhões de eleitores tiveram o direito ao voto suspenso, uma cifra alarmante que não contabiliza as abstenções, indicando uma crise que vai além do ato de votar.
Dolci e Medeiros concordam que as penalidades não têm sido eficazes em incentivar o comparecimento às urnas. O desafio é mais profundo e envolve uma necessidade de reestruturação da relação entre o eleitor e o sistema político. Um investimento em educação política é essencial, particularmente nas escolas, para que as novas gerações compreendam a importância da participação democrática.
“O enfrentamento da abstenção exige mais do que campanhas publicitárias às vésperas das eleições, mas um compromisso duradouro com a educação cívica”, finaliza Medeiros. Essa abordagem pode oferecer uma saída para reverter o desinteresse e a crise de representação que aflige o cenário político brasileiro.

