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Postes que viajam de balsa: entenda como funciona a logística da energia elétrica no Amazonas

Barcos e balsa atracados no barranco do rio Madeira em Humaitá

Porto de Humaitá, às margens do rio Madeira | Foto: James Martins (CC BY 3.0, via Wikimedia Commons)

No Rio de Janeiro, um transformador queimado costuma ser trocado no mesmo dia, com um caminhão que atravessa a cidade. No Amazonas, o mesmo equipamento pode precisar de semanas de viagem de barco. É essa diferença que explica por que a logística virou peça central do trabalho da Âmbar Energia, que assumiu a distribuição de eletricidade no Estado em abril de 2026.

Por que é tão difícil levar energia ao Amazonas?

O Estado tem mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, é cortado por rios cujo nível muda muito ao longo do ano e tem dezenas de municípios distantes de Manaus. Postes, cabos, transformadores, combustível e peças de reposição chegam a muitas localidades apenas por via fluvial.

Além disso, muitos municípios do interior não fazem parte do Sistema Interligado Nacional. Eles dependem de usinas locais e, portanto, do combustível que também precisa ser transportado pelos rios. Quando uma cidade é conectada, o cenário muda: foi o que aconteceu em Parintins, ligada à rede nacional em 2023, o que permitiu desativar a usina térmica a diesel local.

O que é a Operação Vazante?

É o plano da concessionária para se antecipar à seca. Iniciada em maio, antes da fase mais crítica, a operação levou cerca de 1.350 toneladas de postes, transformadores, cabos, cruzetas e peças aos 61 municípios e às nove calhas de rios do Estado, segundo a empresa. Quando as águas baixam, portos ficam inacessíveis e as rotas mudam, por isso o material precisa estar no interior antes.

Uma das balsas partiu de Manaus em 30 de maio para atender as calhas dos rios Juruá e Japurá. No total, foram mais de 15 viagens de balsas e ferry boats. Equipes acompanham diariamente o nível dos rios e o acesso aos portos, e a Âmbar diz ter mobilizado centenas de profissionais e alinhado medidas preventivas com a Defesa Civil do Amazonas.

Basta levar o material?

Não. A rede também precisa ser reforçada para cair menos. Em Humaitá, por exemplo, um plano acompanhado pela Defensoria Pública prevê trocar 39 postes e 262 cruzetas, reforçar 34 quilômetros de rede, limpar a vegetação próxima aos fios e ampliar a equipe que atende a zona rural.

A empresa também passou a negociar diretamente com as prefeituras: segundo a própria concessionária, foram reuniões com 38 prefeitos e 20 acordos assinados. Como cada cidade tem necessidades diferentes, essa conversa ajuda a definir prioridades e a distribuir materiais e equipes.

O que é geração descentralizada?

É produzir energia perto de onde ela é consumida, em vez de depender só de grandes usinas e longas linhas de transmissão. Em Manacapuru, a Âmbar instalou uma termelétrica de 5 MW para reforçar o abastecimento no pico, entre 18h e 23h, quando cerca de 10% da população poderia sofrer cortes diários, de acordo com a empresa. Uma usina perto da carga não elimina os riscos, mas funciona como um colchão de segurança.

A companhia já tinha comprado da Eletrobras, em 2024, usinas termelétricas dos sistemas isolados em Anamã, Anori, Caapiranga e Codajás, e prevê sistemas híbridos, com térmicas, energia solar e baterias, para 23 comunidades.

E as grandes obras?

Continuam no plano. A Âmbar prevê R$ 5,5 bilhões em investimentos na distribuição até 2031, sendo R$ 3,9 bilhões de recursos próprios, para expandir e revitalizar a rede, construir e ampliar subestações, retomar o Luz para Todos e trocar equipamentos.

Onde entra a tecnologia?

Na chamada Energia 4.0. Medidores inteligentes, sensores e automação permitem acompanhar a rede à distância e localizar falhas com mais precisão, reduzindo o tempo entre a descoberta do problema e a chegada da equipe. A digitalização também deve ajudar a combater as perdas não técnicas: a empresa estima que cerca de 44% da energia injetada não seja faturada, principalmente por desvios e ligações clandestinas. A estimativa é da própria companhia e não corresponde automaticamente aos indicadores de perdas da ANEEL.

O objetivo declarado é recuperar a qualidade do serviço, que teve índices desastrosos na antiga Amazonas Energia durante a gestão de Orsine Rufino de Oliveira.

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