Um relatório divulgado pelo IDMJRacial (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial) nesta sexta-feira (24) apontou que 75% das mortes provocadas por operações policiais — entre 2020 e 2025 — estão concentradas em cinco municípios da Baixada Fluminense (RJ).
Segundo o levantamento “Operações policiais na Baixada Fluminense/RJ”, entre os anos analisados foram registradas 5.298 operações, que resultaram em 282 mortos, 652 feridos, 5.783 pessoas presas e 41 adolescentes apreendidos.
De acordo com o relatório, o ano que mais registrou operações policiais na Baixada foi 2022, com 1.486 casos, um aumento de 188% em relação ao ano anterior, que teve 515 operações. Em 2023, o número caiu para 1.233, e a baixa se repetiu em 2024 (1.061 ações) e em 2025 (654).
Territórios mortos
No campo territorial, a cidade de Duque de Caxias lidera entre os municípios da Baixada com mais vítimas, com 66 mortos e 160 feridos em operações entre 2020 e 2025.
Na sequência aparecem: Belford Roxo, com 48 mortos e 127 feridos; São João de Meriti, com 41 mortos e 77 feridos; Nova Iguaçu, com 29 mortos e 85 feridos; e Japeri, com 28 mortos e 70 feridos.
O estudo salientou que, como não há acompanhamento do estado de saúde das vítimas feridas, não foi possível saber se houve mais mortes após o registro na delegacia, ou se houve sobreviventes que tiveram apoio ambulatorial e hospitalar.
Letalidade nas operações
Entre as operações contabilizadas, a maioria foi realizada pela Polícia Militar (86%). No entanto, o relatório aponta para um aumento exponencial de operações deflagradas pela Polícia Civil do estado que, em 2024, chegou a registrar um número 614% maior de operações feitas em comparação a 2020.
Em 2020, o estudo identificou 47 operações policiais executadas pela Civil, contra 366 verificadas em 2024.
Segundo o relatório, de 2020 a 2025, o índice de letalidade policial em operações policiais comandadas pela Polícia Civil cresceu exponencialmente. Em 2024, a corporação realizou 336 operações com o índice de letalidade em 2%. Em 2025, o número de operações diminuiu para 66, mas a taxa de letalidade saltou para 18%.
Já com relação à Polícia Militar, foram 282 pessoas mortas e 652 feridas por seis batalhões diferentes nos 13 municípios da Baixada Fluminense no período analisado.
“Entendemos, a partir disso, que a redução de operações policiais não reduz a violência de estado“, afirma o relatório.
Prisões e apreensões
Em cinco anos, as operações policiais resultaram em 5.783 prisões na Baixada Fluminense. Em 2020, foram 359 pessoas presas; em 2023, o número saltou para 1.515, sendo o pico atingido em 2024, com 1.516 prisões. O ano de 2025 apresentou redução quando comparado ao ano anterior, com 757 prisões registradas.
Atualmente, o estado possui a terceira maior população carcerária do país com 47 mil detentos.
Entre as medidas do estado para com a região da Baixada Fluminense está “Operação Barricada Zero”, que prevê a remoção de barricadas. No período estudado houve 267 ações exclusivas com o objetivo de remover as barricadas.
“A narrativa de enfrentamento à violência tem sido utilizada em detrimento de um projeto de avanço da militarização desses territórios, aliada à expansão da urbanização com obras públicas de pavimentação, drenagem, saneamento básico e pavimentação asfáltica que pretendem a valorização imobiliária da área e, por conseguinte, a expulsão de moradores e moradoras da região”, apontou o relatório.
Além disso, o levantamento destacou que entre 2020 a 2025, a apreensão de fuzis em operações policiais significou 5,5% do total de apreensões. Já em relação aos veículos confiscados pela polícia, as motocicletas (60%) predominam. Em seguida aparecem os carros (20% do total), seguido por caminhões (15%) e vans (5%).
A CNN Brasil busca contato com as Polícias Militar e Civil do estado, além das administrações municipais das cidades citadas. O espaço segue aberto.
Metodologia do estudo
Para construir o estudo, a organização utilizou a mineração de dados (técnica que processa e explora via computador grandes conjuntos de informações, para obter padrões, correlações e tendências base) de redes sociais da Polícia Militar e da Polícia Civil.
Assim, o método usado teve como objetivo identificar locais de atuação das polícias, apreensão de drogas e armas, prisões, assassinatos e pessoas feridas decorrentes desta modalidade de atuação policial.
Segundo Kharine Gil, assistente social e pesquisadora da IDMJRacial, “os números evidenciados no relatório demonstram qual é o modus operandi do estado nos territórios favelados e periféricos”.

