Cientistas políticos analisaram o cenário da corrida eleitoral à Presidência da República em 2026, avaliando o momento político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Após o vazamento de mensagens e áudio em que Flávio se relaciona com o ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, os especialistas ouvidos pela CNN consideram que o pré-candidato enfrentará dificuldades na campanha, enquanto Lula ganha tempo para aprimorar suas estratégias.
De acordo com “trackings” realizados pelo Instituto Atlas, que funcionam como levantamentos diários, após o vazamento do áudio, Lula abriu vantagem de sete pontos percentuais na simulação de segundo turno, revertendo um cenário anterior de empate técnico. Os dados obtidos pela CNN, atualizados às 11h da última sexta-feira, mostram Lula com 49,1% das intenções de voto, contra 42,6% do senador Flávio Bolsonaro.
“No começo do ano, foi registrado um declínio da popularidade do Lula e um favorecimento do nome de Flávio. Mas recentemente, principalmente na última semana, o cenário se modificou bastante, tanto com uma melhora da avaliação do Governo e do próprio Lula, quanto com o nome de Flávio relacionado ao Caso Master, a candidatura dificilmente consegue se recuperar de um baque como esse“, disse o cientista político e professor do Insper, Leandro Consentino.
Dificuldades no diálogo com eleitores independentes
Outro ponto de atenção é a dificuldade em dialogar com o eleitor que ainda se considera indeciso, recorte do eleitorado considerado crucial para o senador. “Flávio sai muito desgastado dessa história do Master, isso não quer dizer que ele tá morto politicamente, mas que ele vai perder votos, possivelmente do eleitor mais independente, da base da direita não bolsonarista. Numa eleição como essa, que vai ser muito disputada, perder votos desses eleitores pode ser decisivo, sobretudo no segundo turno”, afirmou o cientista político e professor da FGV EAESP, Eduardo Grin. “O bolsonarismo sabe que se ficar refém só da própria bolha, não consegue ter voto suficiente para ampliar a campanha”, completou.
Na análise de Consentino, existe no horizonte a possibilidade de uma desistência da candidatura do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Muito provavelmente o núcleo duro do bolsonarismo ainda deve continuar com Flávio, mas a grande questão é que ele perde a capacidade de encantar os moderados, que são um elo importante para conseguir a vitória eleitoral. Ele terá grandes dificuldades caso queira manter a candidatura”, disse.
Polarização e suas consequências
Segundo apontou a pesquisa eleitoral mais recente de amplitude nacional, divulgada pela Genial/Quaest na última quarta-feira (15), com entrevistas realizadas antes dos vazamentos, Lula somou 39% das intenções de voto em primeiro turno, contra 33% de Flávio. Ambos candidatos registram uma grande diferença em comparação com o terceiro colocado, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, que apareceu com 4%. Para Grin, o cenário atual é de forte polarização e tende a continuar.
“Tem muita água para rolar ainda, mas o escândalo certamente pega Flávio num ponto muito sensível. No entanto, isso não deve abrir espaço para alimentar candidaturas de terceira via, como as de Romeu Zema (Novo), Caiado e Renan Santos (Missão). São candidaturas que acredito que não conseguem fugir da polarização. Podem se favorecer dos vazamentos marginalmente, mas não devem alterar a lógica dessa eleição presidencial, que será polarizada entre Flávio Bolsonaro e Lula”, afirmou o professor.
Já Leandro Consentino considera a polarização atual mais sensível. “A polarização é mais frágil, em 2022 você tinha uma união muito forte do campo da direita, assim como na esquerda. Em 2026, essa questão permanece para Lula, que não tem ninguém de seu campo político desafiando a posição dele, mas na direita, com o enfraquecimento de Flávio, eventualmente até com a retirada da sua candidatura, pode implodir o campo e então se torna muito mais frágil essa polarização”, disse.
Estrategias para as candidaturas
Na avaliação dos cientistas, para que Flávio ganhe tração na disputa, o senador deve se valer da baixa aprovação do governo Lula, que na mesma pesquisa Genial/Quaest já mencionada registrou 39% de avaliações negativas. “O principal ativo que pode ser explorado pela direita é a crítica ao atual governo, tendo em vista que, apesar de ter melhorado, a avaliação do Governo não é das melhores”, afirmou Consentino.
Além disso, Grin considerou outros pontos de segurança para o bolsonarista. “Flávio vinha crescendo na inércia do próprio nome, até agora ele fez uma campanha parada e mesmo assim registra empates com Lula. O apoio social que o bolsonarismo tem é sua grande força. Outro ponto é a possibilidade de contar com aliança de partidos com boa capilaridade em prefeituras, os partidos do centrão, também considerando a chance de construir palanques estaduais em colégios fortes, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro e eventualmente Minas Gerais.
Sobre as estratégias de Lula, os especialistas comentam sobre aproveitar bem o momento. “Ele pode adotar a estratégia de jogar parado, tentar não criar polêmicas, tendo em vista que seu adversário está em maus lençóis”, disse o professor do Insper.
O professor Grin ressalta as oportunidades que o presidente têm por ser o atual mandatário e estar em seu terceiro mandato. “Lula tem um ‘recall’ enorme, as pessoas conhecem muito bem o nome, ele tem sobretudo muita penetração no Nordeste. O presidente também conta com a máquina do governo na mão, o que não é pouca coisa, permite a ele realizar uma série de políticas públicas que ele poderá utilizar para dizer que está buscando atender a população, como o fim da 6×1“, afirmou.



