A turismóloga Camila Gil, de 43 anos, lembra exatamente quando percebeu que algo estava errado. A dor no ombro começou discreta, mas em poucas semanas, tarefas simples tornaram-se um desafio. “Vestir uma blusa e até dirigir passaram a ser dolorosos”, conta. “Levantar o braço acima da cabeça se tornou impossível.”
Após meses de consultas, veio o diagnóstico: capsulite adesiva, popularmente conhecida como “ombro congelado”. Essa condição ocorre quando a cápsula que envolve a articulação do ombro passa por um processo inflamatório e se torna rígida. “É como se essa cápsula estivesse toda retraída”, explica o ortopedista Sandro da Silva Reginaldo, especialista do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
O resultado é uma combinação difícil de ignorar: dor intensa e limitação progressiva dos movimentos. Estima-se que essa condição afete entre 2% e 5% da população, segundo a Academia Americana de Médicos de Família. Embora possa afetar qualquer pessoa, aparece com mais frequência em mulheres entre 40 e 60 anos, especialmente durante a transição menopausal. Cientistas investigam se as mudanças hormonais dessa fase podem ter participação direta no problema.
Estrogênio em Foco
Apesar de não haver evidência definitiva de causa e efeito, diversos estudos sugerem uma conexão entre menopausa e capsulite adesiva. A principal suspeita envolve o estrogênio: durante a menopausa, os níveis desse hormônio caem, podendo desencadear efeitos nos tecidos, inclusive nas articulações. Deficiências de estrogênio podem aumentar citocinas inflamatórias e favorecer o espessamento da cápsula do ombro.
Uma revisão publicada em 2025 sugere que falhas na sinalização do estrogênio podem deixar mulheres na peri e pós-menopausa mais vulneráveis à doença. Um estudo com 2 mil participantes concluiu que a terapia de reposição hormonal pode reduzir o risco de ombro congelado. Contudo, especialistas alertam que ainda não há comprovação direta dessa relação.
Fatores de Risco da Capsulite Adesiva
A capsulite adesiva também pode ser desencadeada por condições como diabetes e distúrbios da tireoide. Estudos mostram que pacientes diabéticos têm cinco vezes mais probabilidade de desenvolver a condição. Já uma pesquisa da UFRJ revelou que o hipotireoidismo é mais prevalente entre os diagnosticados com capsulite adesiva.
Pesquisas também sugerem que baixo Índice de Massa Corpórea (IMC) e alto colesterol podem ser fatores de risco. Assim, alguns pesquisadores começam a enxergar o ombro congelado como parte de um quadro sistêmico, envolvendo metabolismo e hormônios.
Tratamento e Alívio da Dor
O tratamento pode incluir fisioterapia, analgésicos e anti-inflamatórios. A fisioterapia é essencial, especialmente após o congelamento do ombro, quando a dor diminui. Como a fase de dor é intensa, analgésicos e bloqueios anestésicos costumam ser recomendados.
Camila, que teve a doença nos dois ombros, passou por um ano de fisioterapia em cada um. “Foi um processo lento, mas essencial para recuperar os movimentos e reduzir a dor. Depois dessa experiência, passei a olhar a menopausa com mais atenção”, relata.
